A contaminação por fibras de plástico no Brasil e no mundo

“Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca” – provérbio popular

O planeta chamado Terra, curiosamente, é composto por aproximadamente 70% de água. Este volume representa 1,35 milhões de quilômetros cúbicos, dos quais apenas 3% é de água doce – a maior parte concentrada em geleiras, que incluem a neve das montanhas. Somente uma pequena porcentagem de águas superficiais está disponível para as atividades humanas.

Dados da ONU dizem que, até 2050, aproximadamente 45% da população não disporá da quantidade mínima de água para consumo, e hoje 50% da população do mundo subdesenvolvido já consome água poluída – dados recentes. Mas, será mesmo que essa informação é real?

A organização Orb Media realizou um levantamento inédito que analisou 159 amostras de água potável que foram coletadas em cinco continentes, em diversos países – incluindo o Brasil. O que se descobriu foi alarmante: 83% de tais amostras continham plástico – um derivado do petróleo, portanto um produto tóxico e cumulativo. Houve um empate na maior incidência, com Estados Unidos e Líbano apresentando amostras 94% contaminadas.

“Sempre que você subdivide um problema, como acontece quando a indústria de plástico não é responsabilizada por seus tipos específicos de resíduos, cria-se a possibilidade desse setor, em seguida, culpar outro. Então, a culpa é do manejo do lixo; não é do produtor. A culpa é do pessoal do tratamento de esgoto. Não é culpa do fabricante de roupas. A culpa é das pessoas que têm máquina de lavar roupas. A culpa é de outra pessoa. De modo geral, a culpa é nossa.” – disse o Dr. Mark Browne, Pesquisador Sênior da Faculdade de Ciências Biológicas, da Terra e do Ambiente na Universidade de Nova Gales do Sul.

No País, o jornal Folha de São Paulo foi o responsável por reunir 10 amostras, coletadas na cidade de São Paulo/SP, e enviar aos laboratórios da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, onde o trabalho foi centralizado. A surpresa: das 10 amostras, 9 continham fibras de plástico, um teor que, além de alto, é superior à média mundial.

A amostra com mais fibras, 5 no total, saiu de uma torneira de cozinha na região oeste de São Paulo. Em seguida, vieram as garrafas de água de torneiras do banheiro do parque Ibirapuera (4 fibras) e do Masp (3).

Há literalmente milhões de usos para plásticos e centenas, senão milhares, de tipos diferentes de plástico. Esses tipos são identificados por sete códigos de identificação da resina (o código da resina não significa que um plástico específico seja reciclável; ele apenas identifica as principais propriedades do plástico). Para entendermos a relevância disto, falaremos sobre os tipos de plástico. São 7:

  • Código de Resina 1 – Polietileno Tereftalato (PET)
    O PET é o plástico onipresente e durável usado para fazer garrafas de água, suco e refrigerante, além de roupas de fibra de poliéster. É um dos plásticos mais seguros para armazenar alimentos e é facilmente reciclado.Efeitos sobre a saúde: estudos demonstraram que o PET pode liberar antimônio, um mineral tóxico, quando exposto a altas temperaturas, como em seu carro ou um mercado ao ar livre durante o verão equatorial escaldante, em quantidades que excedam as diretrizes de segurança dos Estados Unidos. Este processo se acelera quando os produtos PET são aquecidos no micro-ondas. Quando a exposição excede os limites do governo, os efeitos do antimônio sobre a saúde são náusea, vômitos e diarreia.
  • Código de Resina 2 – Polietileno de Alta Densidade (PEAD)
    Esse material de embalagem versátil é usado para leite, suco, água, materiais de limpeza e xampu.Efeitos sobre a saúde: como a maioria dos produtos de plástico, demonstrou-se que o PEAD libera compostos estrogênicos, compostos artificiais que imitam o hormônio estrogênio, quando expostos ao calor, à água fervente e à luz solar. Os compostos estrogênicos estão associados ao câncer de mama, à endometriose, a proporções sexuais alteradas, ao câncer testicular, à má qualidade do sêmen, à puberdade precoce e a malformações do trato reprodutivo (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos).
  • Código de Resina 3 – Policloreto de vinila (PVC)
    O PVC serve para embalar carne e sanduíches, flutua na banheira na forma de brinquedos de banho e contribui para casacos elegantes e tubulações domésticas baratas.Efeitos sobre a saúde: o PVC plastificado solubiliza substâncias tóxicas ao entrar em contato com a água. Quatro agentes amaciadores utilizados com o PVC, conhecidos como ftalatos, foram adicionados recentemente à lista de “Substâncias que suscitam elevada preocupação” da Agência Europeia de Produtos Químicos por seu papel como “desreguladores endócrinos”, produtos químicos que interferem na produção de hormônios pelo organismo. Os ftalatos estão associados ao desenvolvimento impróprio de órgãos reprodutivos de fetos e a outros problemas de saúde.
  • Código de Resina 4 – Polietileno de baixa densidade (PEBD)
    O PEBD é utilizado em materiais termocontráteis, caixas de leite longa vida, copos descartáveis de café, além de ser usado para embrulhar pães de forma, jornais e roupas lavadas a seco.Efeitos sobre a saúde: o PEBD é considerado um “plástico de baixo risco”.
  • Código de Resina 5 – Polipropileno (PP)
    O polipropileno é usado para fazer potes de iogurte e embalagem de quentinhas, remédios e xaropes. As fibras de polipropileno são usadas para fazer roupas de frio, e também, são usadas em componentes automotivos, fibras de tapete, equipamentos de laboratório e até papel moeda.Efeitos sobre a saúde: é considerado um plástico bastante seguro.
  • Código de Resina 6 – Poliestireno (PS)
    A espuma de poliestireno expandido (isopor) é muito utilizada nas embalagens de entrega de comida e no setor de pesca. O poliestireno está nas tampas do copo de café, nas garrafinhas de suco, nos talheres e em outros recipientes.Efeitos sobre a saúde: o estireno, que os cientistas do governo dos Estados Unidos afirmam ser “possivelmente cancerígeno humano”, pode ser liberado quando o poliestireno entra em contato com bebidas quentes. O poliestireno é muito utilizado para fazer copos de café e suas tampas. “Levando em consideração as características tóxicas do estireno e a lixiviação na água e em outros produtos, o material deve ser evitado nas embalagens de alimentos”, segundo a recomendação de um estudo de 2007. “Em particular, os copos de [poliestireno] rígido e de isopor não devem ser utilizados com bebidas quentes”.
  • Código de Resina 7 – Outros
    Essa classificação é empregada para as resinas plásticas diferentes das de número um a seis, ou feitas a partir de uma combinação de resinas. Garrafões de 10 ou 20 litros de água potável, alguns recipientes de suco de laranja e outros tipos de embalagem pertencem a essa categoria.Efeitos sobre a saúde: o que muitos desses plásticos têm em comum é o uso do composto bisfenol A (BPA), um desregulador endócrino. O BPA tem sido associado a alterações hormonais, problemas reprodutivos, asma e obesidade. Isso inclui o plástico de policarbonato, que ainda é usado para fabricar mamadeiras em muitos países.

De acordo com o Dr. Scott Belcher, Professor Pesquisador da Universidade Estadual da Carolina do Norte e porta-voz do The Endocrine Society, “produtos químicos vindos dos plásticos são uma parte constante da nossa dieta diária. De modo geral, pensamos que a garrafa de água pura da nascente, a tigela de plástico em que preparamos nossas refeições e que é apropriada para micro-ondas ou o copo de isopor com uma bebida quente existem para proteger nossos alimentos e bebidas. Mas em vez de formar uma barreira completamente inerte, esses plásticos se decompõem e liberam produtos químicos, incluindo plastificantes que são desreguladores endócrinos, como o bisfenol A ou ftalatos, retardadores de chama e até mesmo metais pesados tóxicos, que são todos incorporados à nossa dieta e ao organismo.”

Voltamos, então, à questão anterior: a ONU disse que 50% da população do mundo subdesenvolvido já consome água poluída. Trata-se de uma inverdade! Podemos crer que não se limita ao mundo subdesenvolvido, tampouco a 50%: a poluição é real e está presente até mesmo em locais que jamais imaginaríamos, como fontes minerais.

Num mundo que, atualmente, cerca de 2,2 milhões de pessoas morrem por água contaminada e sem tratamento, o desperdício e o descarte inadequado são grandes barreiras à sobrevivência humana e animal.

Quando o assunto é recursos hídricos, o Brasil ocupa posição de destaque no mundo, com 53% do manancial de água doce da América do Sul; possui o maior rio do planeta, o rio Amazonas; está localizado sobre parte do Aquífero Guarani; o clima favorece elevados índices pluviométricos; entre outros aspectos. E, com falta de esforços adequados e investimento maciço em educação e conscientização da população sobre o uso da água, reciclagem e proteção ao Meio Ambiente, o Brasil mudará de saída ambiental para o mundo para latrina terrestre; ou, pior ainda, sofrerá sanções ou será alvo de conflitos internacionais para controle e remediação, doa a quem doer.

Curioso notar que o Sr. Presidente da República, seus Ministros, Senadores, Deputados, Governadores, Secretários, Vereadores, Prefeitos e até os mandatários de empresas de saneamento básico do País banham-se, cozinham, nadam, realizam diversas atividades em águas poluídas. Até mesmo aquele cafezinho servido entre uma reunião e outra pode conter elementos prejudiciais à saúde humana… e na sua casa, certamente não é diferente disso. Neste exato momento, alguém pode estar sendo contaminado, com efeitos desconhecidos a longo, médio e até curto prazos.

Quando o plástico surgiu, foi como uma bênção, uma benesse que facilitou diversas dificuldades da sociedade; conforme foi sendo desenvolvido e estudado, estimou-se sua decomposição na água em até 500 anos – mas esqueceu-se de refletir sobre o resultado dessa decomposição em termos químicos e gerais. A cada ano, 270 milhões de toneladas de plástico são produzidas no mundo, das quais 40% é usada uma vez e descartada. E o que fazemos com os 499 anos restantes de vida útil do produto?

Nenhum fabricante de produto que contenha plástico pede permissão para colocá-lo em seu corpo. E o setor industrial, os pesquisadores independentes e as agências reguladoras demoram para fazer declarações (muitas vezes contraditórias), sobre a segurança de um determinado poluente. Esse atraso traz grandes prejuízos: quando os Estados Unidos eliminaram o uso do retardador de chama PDBE em eletrônicos, roupas de bebê e móveis, a exposição ao produto químico já tinha removido 11 milhões de pontos do QI das habilidades intelectuais de dezenas de milhares de crianças nos Estados Unidos, a um custo de US$ 266 bilhões e sofrimento incomensurável.

O que podemos fazer para evitar ou contornar este problema? A bola agora está com o governo, com a sociedade, com os cientistas: estes últimos para pesquisarem soluções, a sociedade para se conscientizar sobre o uso racional do plástico e, principalmente, seu descarte adequado, e o governo para fiscalizar de forma dura e intensiva o que ocorre desde a fabricação do produto até a sua destinação final – incluindo aí, é claro, processos adequados de reciclagem que atinja o máximo da população possível.

Por Thyago Szoke, com informações de Dan Morrison e Chris Tyree da Orb Media.

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